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Quadrilhas de roubo de gado aterrorizam o Recôncavo baiano

Publicada em 08/10/2017 ás 09:47:48

 

Ao menos 300 animais foram roubados nos últimos dois meses; SSP determina celeridade em investigações.

Criadores de gado do Recôncavo baiano estão amedrontados com o furto de gado praticado por quadrilhas que vêm aterrorizando a região. Segundo os fazendeiros, os ataques têm intensificado nos últimos dois meses, quando pelo menos 300 animais foram levados pelos bandidos. Esse tipo de crime tem até um nome: abigeato.

A Polícia Civil informou que os ataques têm se concentrado na zona rural das cidades de Santo Amaro, São Sebastião do Passé e Terra Nova, e há registros também em Amélia Rodrigues e Teodoro Sampaio.

A Bahia, segundo a Pesquisa da Produção da Pecuária Municipal (PPM) 2016, divulgada no último dia 28 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), possui o nono maior rebanho do Brasil, com 10.336.291 cabeças de gado.

Os dados apontam redução do rebanho baiano, já que em 2015 era de 10.758.372 e em julho deste ano a Secretaria estadual da Agricultura (Seagri) registrou 9.910.933 cabeças de gado, durante a campanha de vacinação contra a febre aftosa. Já no Brasil, o rebanho aumentou, saindo de 215.220.508, em 2015, para 218.225.177, em 2016.

Bandos identificados

A Secretaria estadual da Segurança Pública (SSP) informou que as delegacias das cidades onde há registro de casos já estão trabalhando em conjunto na investigação dos furtos de animais, e que algumas quadrilhas já foram identificadas.

“Há operações em andamento, com quadrilhas identificadas, com o objetivo de desmantelar esses grupos que, em sua maioria, roubam os animais para o comércio ilegal da carne”, informou a SSP, em nota.

Na semana passada, o secretário da Segurança Pública, Maurício Teles Barbosa, recebeu representantes da Comissão de Meio Ambiente da Assembleia Legislativa da Bahia (AL-BA) e determinou às unidades policiais maior celeridade nas investigações.

A SSP informou que as delegacias “logo devem apresentar relatório com a situação das ocorrências registradas, bem como o resultado das ações policiais”. Assessor jurídico da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado (Faeb), Carlos Bahia confirmou o agravamento da situação no Recôncavo.

Segundo ele, a entidade, que representa os produtores baianos, tem participado de reuniões para tratar do assunto, juntamente com a Confederação da Agricultura e Pecuária (CNA) e vítimas de abigeatários, e providências estão sendo tomadas para reduzir as ocorrências. “Também temos realizado encontros com os produtores rurais e orientado as vítimas na adoção das medidas policiais e judiciais cabíveis”, afirmou.

O deputado estadual Eduardo Salles (PP), da Comissão de Meio Ambiente da AL-BA, que cobra mais rapidez nas investigações, disse que outras regiões também estão sendo alvo de roubos de gado (ver mais ao lado).

“No momento, os fatos mais graves estão ocorrendo no Recôncavo, mas nas regiões Oeste, Sudoeste e Sul esses crimes vêm ocorrendo sempre, sem que ninguém seja preso. Há casos de roubo de produção de café e até de trator”, afirmou Salles, que é ex-secretário da Agricultura. Nenhum representante da pasta foi localizado para comentar o assunto.

Na calada da noite

A polícia informou que para transportar o gado de forma escondida, os ladrões usam caminhões-baú e agem sempre à noite. O animal, geralmente, é abatido e a carne vendida para açougues, mas a polícia investiga também se o gado está sendo levado para frigoríficos, já que há registros de furtos entre 11 e 35 cabeças de gado de uma vez só.

“É certo que, para dar fim de forma rápida a essas grandes quantias de cabeças de gado, os ladrões precisam ter já antes os locais para onde eles serão levados e abatidos, já que não é algo fácil de se esconder por muito tempo. Não descartamos a possibilidade de haver frigoríficos envolvidos nesses crimes”, disse o delegado Rafael Almeida Oliveira, da 3ª Coordenadoria de Polícia do Interior (Coorpin), em Santo Amaro, onde houve o registro de 57 furtos de gado nos últimos dois meses.

Sem se identificar, um criador de gado da cidade contou que, há duas semanas, ele teve 15 cabeças de gado furtadas da fazenda, onde estão outros 100 animais.

“Levaram numa noite de sexta para sábado, quando costumam agir com mais frequência, para matar o animal e vender logo a carne no dia seguinte na feira”, disse o fazendeiro, segundo o qual cada cabeça de gado custa cerca de R$ 2,5 mil.
Ele disse que prestou queixa na delegacia e espera providências urgentes. “O prejuízo só não está sendo maior porque os ladrões ainda não levaram animais de raça pura. Há bois que chegam a valer R$ 10 mil, que só tem preço de venda mesmo. Se for para matar, é o mesmo valor do gado comum. O perigo é, num roubo desses, entrar um animal valioso”, declarou, preocupado.

O delegado disse que, na cidade, três homens foram presos no dia 6 de agosto, sendo que um deles já era reincidente no crime de abate ilegal de animais, crime sanitário previsto na Portaria 304/1996, do Ministério da Agricultura, que regula desde o abate até o comércio de carne bovina.

Os três homens estavam numa picape com um boi abatido de forma ilegal. “Estamos focando no abate ilegal para chegar à origem do furto, e orientamos as pessoas a não consumirem carne não refrigerada, de origem duvidosa, já que produto deste tipo não segue nenhuma regra sanitária”, completou o delegado Oliveira.

Só deixa as vísceras

Na zona rural de São Sebastião do Passé, os criadores de gado dos povoados de Massapê e Riacho Claro, situados, respectivamente, a 16 km e a 18 km da sede, estão sendo os principais alvos dos ladrões, que, além de levar rebanhos, também matam animais no local, deixando para trás apenas as vísceras e, às vezes, apenas o sangue.

“Roubaram 35 cabeças de gado numa propriedade vizinha à minha, no povoado de Massapê. Já falamos várias vezes com a polícia. O problema de roubo já vem ocorrendo há alguns anos, e tem assalto também. Eles ficam nas estradas esperando que a gente passe para cometer os crimes”, disse a presidente do Sindicato Rural de Passé, Jocélia Maria de Jesus, 60.

O chefe do Serviço de Investigação da Delegacia de São Sebastião do Passé, Luiz Cláudio Castro, disse que as quadrilhas que estão agindo na região são compostas, em sua maioria, por pessoas de fora, possivelmente contratadas exclusivamente para realizar esse tipo de crime.

“Estamos investigando alguns veículos suspeitos, muitos deles caminhões-baú. Desvendar esses casos está sendo o nosso principal foco”, afirmou o delegado Castro.

Carga suspeita na capital

Há fortes indícios de que os 150 quilos de carne bovina apreendidos em um mercado clandestino no bairro de Monte Serrat, em Salvador, no início deste mês, seja de gado roubado de fazendas do Recôncavo, informou a delegada que investiga o caso, Carla Santos Ramos, titular da Delegacia de Repressão a Furtos e Roubos (DRFR).

“Quase sempre, quando tem mercado clandestino, a carne é oriunda de gado que foi furtado. Estamos tentando descobrir a origem dessa carne. Sabemos que ela é ilegal por não ter documentação alguma que comprove de onde veio”, comenta a investigadora, informando ainda que deverá ouvir novas pessoas sobre o caso.

A apreensão da carne, no entanto, ocorreu por acaso. Policiais civis foram até o bairro da Cidade Baixa com o objetivo de prender Diego de Jesus Santos Vitória, suspeito de ser integrante de uma quadrilha de roubo de cargas que atua em Salvador e região metropolitana – a polícia não informou que tipo de roubo de carga Diego está envolvido. Ele tinha um mandado de prisão em aberto.

No local, ao invés de Diego, estava o pai, Robério dos Santos Vitória, 55 anos, que por pouco não escapa. Os policiais já estavam indo embora, quando sentiram o cheiro de carne podre, encontrado em um refrigerador velho. Robério foi preso em flagrante e disse que comprou a carne de um frigorífico.

“Vamos procurar o frigorífico para saber a veracidade das informações dele. Mas, mesmo se não tiver essa confirmação, continuaremos as investigações, atentos a esses casos de carne sem origem comprovada”, disse a titular da DRFR.
Diego ainda está sendo procurado pela polícia. Quem tiver informações sobre o paradeiro dele pode ajudar os investigadores pelo Dique Denúncia (71) 3235-0000. O sigilo da ligação é garantido.

Outras regiões

A onda de roubos de gado não aflige apenas os produtores rurais do Recôncavo. É o que garante o assessor jurídico da Faeb, Carlos Bahia, que acompanha o setor há mais de duas décadas. “Sabemos que na Bahia, desde o início do ano, o problema se agravou e já ocorreu em propriedades de todas as regiões, alcançando milhares de cabeças de gado, sendo que os roubos e furtos se dão também com relação a insumos agrícolas, máquinas, implementos”, cita.

De acordo com a entidade, as cidades onde têm ocorrido maior incidência de abigeato (roubo de gado) são Feira de Santana, Antonio Cardoso, Tanquinho, Iaçu e Marcionilio Souza (no Centro Norte do estado), Riachão do Jacuípe, Rio Real, Barrocas, Biritinga (no Nordeste), Caetité (Sudoeste), Iramaia (Chapada Diamantina), além de praticamente todos os municípios do Sul, incluindo Itaju do Colônia e Itapetinga.

Nestas duas cidades, além dos contumazes abigeatários, os fazendeiros disseram suspeitar do furto de gado por parte de índios, que invadiram 27 fazendas entre os dias 23 e 30 do mês passado. Uma das propriedades invadidas pertence à família do ex-ministro Geddel Vieira Lima – a família entrou com um pedido de reintegração de posse. A polícia vai investigar as denúncias de roubo de animais.

Segundo Carlos Bahia, a CNA, sindicatos de produtores e a própria Faeb estão desenvolvendo um levantamento, a nível nacional, para se chegar a um diagnóstico preciso do número de propriedades e produtores que tiveram animais roubados, entre outros dados que podem ajudar no controle das ocorrências. A Faeb, inclusive, tem um setor que recebe denúncias, que podem ser feitas pessoalmente (na sede da empresa, na Rua Pedro Rodrigues Bandeira, 143, Comércio) ou no telefone 71 3415-7100. Informação:  Correio.

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